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Monthly Archives: July 2008

A word first about a tricky concept that you need to be able to understand if you are to accompany me through what follows without flagging, and without getting lost. Woe betide you if you do, because where we are about to go is virgin territory. It’s a wild primeval place, a realm of the id, where the very manifold of your identity can easily be gashed open, sundered, so that all the little reflex actions that you call your ‘self’ will spill out, just so many polystyrene personality pellets, tumbling from a slashed sag-bag. I will not be able to help you in this place and nor, may I say, do I wish to.

This concept is eidetic memory and I am an eidetiker. Perhaps I was always meant to be one – whatever that means – or maybe it was part of the set-up, something to do with the way my destiny has been queered by you-know-who. But no matter, that is not the issue here. (p. 15)

My Idea of Fun, publicado em 1993, foi o primeiro romance de Will Self. O protagonista do livro é Ian Wharton, que trabalha com marketing. Ian é o ‘eidético’ do trecho supracitado, capaz de relembrar qualquer imagem no seu campo de visão e manipulá-la mentalmente (capaz de, por exemplo, ‘ler’ uma folha inteira de jornal tendo-a visto apenas de relance). Além disso, Ian se acredita capaz de manipular suas lembranças visuais a ponto de saber coisas que ele sequer viu (como o outro lado da folha de jornal, ou o que alguma pessoa tem dentro do bolso).

Ian tem como tutor Mr. Broadhurst, depois chamado Samuel Northcliff e The Fat Controller, com artigo maiúsculo. Broadhusrt/Northcliff é a tentativa de Will Self de fazer uma personagem completamente amoral, à maneira dos quatro libertinos de Sade nos 120 dias de Sodoma. Diferente de Sade, porém, a amoralidade do Fat Controller é assexuada: o tutor impede que Ian faça sexo, sob a alegação de que seu pênis seria arrancado. Seu tutorado funciona como uma espécie de aprendizado mágico, no qual Ian aprenderia novos poderes relativos à sua capacidade eidética. Esse aprendizado envolve a codificação de uma espécie de ‘mágica cotidiana’, que regula todos os aspectos da vida de Ian por meio de diferentes rotinas, como lavar as mãos determinado número de vezes por dia, nunca pisar nas divisões do calçamento, etc.

Northcliff, no entanto, pode ou não existir: num capítulo chamado ‘Rehabilitation’, Ian se trata com o Dr. Gyggle, psiquiatra ligado à universidade na qual estuda marketing, e se cura de boa parte de suas manias. O leitor fica, então, convencido de que Broadhurst era um tutor imaginário. Este capítulo termina a primeira parte, intitulada ‘The first person’. Na segunda parte, ‘The third person’, o jogo metalingüístico continua e a narração passa a ser na terceira pessoa. Aí a confusão se instaura, pois Northcliff/Broadhurst continua aparecendo na história, inclusive em cenas que não têm a participação de Ian. Efetivamente se instaura a realidade textual da personagem, com as mesmas características que tinha enquanto tutor na primeira parte (muito gordo, fuma charuto, mata por qualquer coisa).

Nesta segunda parte, Ian continua o tratamento com o Dr. Gyggle, através de uma série de sessões de sono induzido e longo (mais de 24 horas), com o objetivo de, através dos sonhos, enfrentar imageticamente o tutor e superar essa fase. Nos sonhos Ian vai para a ‘Land of children jokes’, um meio-termo entre Alice no país das maravilhas e Naked lunch. Lá, quando consegue finalmente confrontar The Fat Controller, acaba relembrando pedaços de sua vida que estavam completamente apagados da memória, nos quais, em contraponto violento com seu comportamento usual, ele age como se estivesse no realm of the id já citado.

A indefinição do caráter real ou imaginário de vários elementos do texto torna o projeto de Will Self interessante. Seu grande problema é a fraqueza de certas caracterizações. Broadhurst, por exemplo, que tenta ser uma paródia de certos vilões de Dickens, acaba mais parecido com o Rei do Crime das revistas do Homem-Aranha e do Demolidor. Sua ‘Land of children jokes’ não chega nem perto da força (que é uma força de linguagem) dos pesadelos de William Burroughs.

Além das comparações valorativas, o grande problema de Will Self (neste livro, o único que li) é o seu momento histórico – o que também é seu grande valor, o valor de um sintoma. A própria fraqueza das paródias reforça seu caráter de simulacro, de um momento onde o que se vê da realidade é um reflexo embaçado, que pode ou não ser o que acontece mesmo. Já em 1993, com a Internet ainda engatinhando (e provavelmente escrevendo num 286), e sem tematizar explicitamente a tecnologia (como faz William Gibson, p. ex.), Self consegue representar, na forma, alguns problemas do mundo e da literatura de hoje.

Voltando aos pontos negativos, outro grande problema do livro de Self é o que, para nós – brasileiros, latino-americanos, todo mundo que está fora do eixo Estados Unidos/Europa – só pode ser visto como uma enorme alienação. O problema não é único de Self, e também se encontra em grande parte da produção literária brasileira (e gaúcha). É um voltar as costas à realidade, característico da nova posição do que antes se chamaria de classe média.

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Todos saben que maté a María Iribarne Hunter. Pero nadie sabe cómo la conocí, qué relaciones hubo exactamente entre nosotros y cómo fui haciéndome a la idea de matarla. Trataré de relatar todo imparcialmente, porque, aunque sufrí mucho por su culpa, no tengo la necia pretensión de ser perfecto. (p. 15)

O livro de Sábato, narrado e protagonizado pelo pintor Juan Pablo Castel, mostra como esse assassinato de María Iribarne veio a ser. Determinada leitura pode pensar no romance como uma história do ciúme incontrolável de Juan Pablo – ela é casada e os dois têm um romance. Outra leitura, apegada à metáfora do túnel, pode mostrar toda a experiência do pintor, inclusive a própria personagem María, como uma série de construções fantasmáticas, como o protagonista vendo fragmentos do mundo através das janelas do seu túnel/nas paredes de sua caverna. Por exemplo, num dos primeiros encontros entre os dois, Juan Pablo pensa ter visto, através da semi-obscuridade da noite na Recoleta, um sorriso de María, que teria acontecido um décimo de segundo antes – como a sensação de que se é observado.

Minha leitura não foi simplesmente a de uma história de ciúme, nem se aproxima tanto do solipsismo quanto a segunda. Embora Juan Pablo não narre ‘todo imparcialmente’, a partir do texto se pode perceber uma construção subjacente da personagem María, distante e mesmo contrária às intenções/interpretações do narrador. A narração ela mesma mostra um processo interpretativo. Juan Pablo examina as possibilidades envolvidas em cada ato de María – as possíveis motivações para sua primeira carta, por exemplo – e as elimina, após uma análise que chama de ‘lógica’. O emprego dessas racionalizações, junto a uma lógica experimental, que tenta, ativamente e a cada momento, enredar María em alguma contradição ou na admissão de alguma traição ou engano, acaba fazendo Juan Pablo concluir pelo caráter essencialmente enganador de María, e leva ao assassinato. No entanto, o romance mesmo solapa essas conclusões, mostrando, além das premissas frágeis do que Juan Pablo conclui, o quanto o processo ‘lógico’ é um recalque (confusões mentais, bebida, amnésias).

O romance em si é mais rico que qualquer uma das leituras, oscilando entre a representação de experiências fugazes e dos extensos processos mentais que lhes seguem (extensos e contraditórios, misturando ‘lógica’ e culpa). Na edição que li, o livro tem 150 páginas, bem pequenas porque é uma edição de bolso. Li de uma vez só: foi impossível não continuar até o fim. Sei que existe tradução para o português, mas recomendo ler no original, já que o espanhol de Sábato (neste livro) é bastante simples e envolvente (em especial os diálogos). El túnel foi publicado pela primeira vez na revista El Sur, em 1948 (seis anos depois de O estrangeiro). O autor, então com 37 anos, está vivo ainda.