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Todos saben que maté a María Iribarne Hunter. Pero nadie sabe cómo la conocí, qué relaciones hubo exactamente entre nosotros y cómo fui haciéndome a la idea de matarla. Trataré de relatar todo imparcialmente, porque, aunque sufrí mucho por su culpa, no tengo la necia pretensión de ser perfecto. (p. 15)

O livro de Sábato, narrado e protagonizado pelo pintor Juan Pablo Castel, mostra como esse assassinato de María Iribarne veio a ser. Determinada leitura pode pensar no romance como uma história do ciúme incontrolável de Juan Pablo – ela é casada e os dois têm um romance. Outra leitura, apegada à metáfora do túnel, pode mostrar toda a experiência do pintor, inclusive a própria personagem María, como uma série de construções fantasmáticas, como o protagonista vendo fragmentos do mundo através das janelas do seu túnel/nas paredes de sua caverna. Por exemplo, num dos primeiros encontros entre os dois, Juan Pablo pensa ter visto, através da semi-obscuridade da noite na Recoleta, um sorriso de María, que teria acontecido um décimo de segundo antes – como a sensação de que se é observado.

Minha leitura não foi simplesmente a de uma história de ciúme, nem se aproxima tanto do solipsismo quanto a segunda. Embora Juan Pablo não narre ‘todo imparcialmente’, a partir do texto se pode perceber uma construção subjacente da personagem María, distante e mesmo contrária às intenções/interpretações do narrador. A narração ela mesma mostra um processo interpretativo. Juan Pablo examina as possibilidades envolvidas em cada ato de María – as possíveis motivações para sua primeira carta, por exemplo – e as elimina, após uma análise que chama de ‘lógica’. O emprego dessas racionalizações, junto a uma lógica experimental, que tenta, ativamente e a cada momento, enredar María em alguma contradição ou na admissão de alguma traição ou engano, acaba fazendo Juan Pablo concluir pelo caráter essencialmente enganador de María, e leva ao assassinato. No entanto, o romance mesmo solapa essas conclusões, mostrando, além das premissas frágeis do que Juan Pablo conclui, o quanto o processo ‘lógico’ é um recalque (confusões mentais, bebida, amnésias).

O romance em si é mais rico que qualquer uma das leituras, oscilando entre a representação de experiências fugazes e dos extensos processos mentais que lhes seguem (extensos e contraditórios, misturando ‘lógica’ e culpa). Na edição que li, o livro tem 150 páginas, bem pequenas porque é uma edição de bolso. Li de uma vez só: foi impossível não continuar até o fim. Sei que existe tradução para o português, mas recomendo ler no original, já que o espanhol de Sábato (neste livro) é bastante simples e envolvente (em especial os diálogos). El túnel foi publicado pela primeira vez na revista El Sur, em 1948 (seis anos depois de O estrangeiro). O autor, então com 37 anos, está vivo ainda.

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8 Comments

  1. Geniaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal!
    Já tá linkado no meu broug.
    Te quiero leer, te quiero leeeer!

  2. muito lindo essa tua página, tremenda limpeza estética e elegância, temperada nas baixas temperaturas do sul.

  3. Muito massa.
    Estranhava o fato de tão talentoso rapaz com as palavras não ter um blog…

    Tá adicionado aos favoritos e virou leitura cotidiana…

  4. Eu sou o oxyghene, viu?
    Se quiser dar uma passadinha no meu blog, agradecemos o fluxo digital.

  5. Olá Pedro,
    Esse romance lembra muito “Dom Casmurro”, exceto pelo fato de que aqui a traição parece que realmente aconteceu, ou…?
    Seria legal se tu pudesses fazer uma pequena comparação entre essas obras em tua próxima postagem.Eu adoraria lê-la.

    abs,
    Melina.

  6. Gostei muito, Pedro! E acho que conseguiste ainda o mais importante: fiquei com uma tremenda vontade de ler!

  7. marcelo, pedro h. e ana: obrigado pelos elogios.

    melina: embora eu já tenha lido Dom Casmurro algumas vezes, para fazer uma comparação com segurança teria que reler – algo que não daria tempo agora. No entanto, creio que ‘El túnel’ tem mais pontos de contato com ‘O estrangeiro’, do Camus.

    Me perguntaram por email sobre a periodicidade do blog. Pretendo ainda fazer um metapost explicando meus procedimentos, mas por enquanto fica registrado que pretendo escrever aqui ao menos uma vez por semana. Minha vontade era escrever todos os dias – mas, infelizmente, não consigo (ainda) ler um livro por dia.

  8. Hei! hj já é dia 28!!!!

    abs,
    melinaduarte
    http://www.melinaduarte.blogspot.com


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