Skip navigation

Monthly Archives: November 2010

Michael Korfmann, Christoph Schamm e Vivian Nickel,
participação via skype do Prof. Hans Ulrich Gumbrecht, da Stanford University, e de Pedro Mandagará (Doutorando PUCRS, em bolsa-sanduíche da CAPES em Stanford):

Dia 25 de novembro, quinta feira, a partir das 14h.
Local: UFRGS – ILEA – Sala 111 (Sala do Pesquisador); entrada franca.

Outras informações:

http://www.ufrgs.br/ppgletras/

http://www.ufrgs.br/ppgletras/convitegumbrecht.pdf

Esta semana fui a uma apresentação de um paper aqui em Stanford que comparava um poema de Paul Celan com The road, de Cormac McCarthy. Evidentemente eu não tenho competência para falar de Celan, sabendo tão pouco alemão. Lembrando do livro de McCarthy, comecei a pensar na coincidência de cenários pós-apocalípticos no cinema, literatura e cultura atuais. Dois exemplos recentes me vieram de imediato. O primeiro, a série The walking dead da AMC e seu estrondoso sucesso de público, muito acima do que seria esperado pelo público modesto (mas fiel) da série original em quadrinhos. O segundo é o terrível filme Skyline, que assisti no último fim de semana em Los Angeles (em minha defesa, eu queria conhecer o Chinese Theater por dentro e esse filme era o que estava passando).

The road se passa num futuro de desastre ecológico, supostamente ocorrido após um evento que lembra, pelas poucas referências, o de uma explosão nuclear. Nesse ambiente, nada está vivo: não há plantas, animais ou peixes. Um pai e seu filho, protagonistas do romance, sobrevivem a partir dos restos da civilização que acabou, procurando comida enlatada em casas abandonadas, e seguindo uma interminável estrada.

The walking dead tem um tom semelhante. No seu futuro, o mundo foi tomado por zumbis e os poucos sobreviventes procuram sobreviver dos restos do que havia antes, ou estabelecendo comunidades temporárias (na versão em quadrinhos chega a ser reinventada a agricultura numa delas). A morte do planeta não é tão completa como no romance de McCarthy: embora os zumbis comam tanto humanos como animais, diminuindo consideravelmente a população de ambos, as plantas ainda sobrevivem, e o problema da poluição não aparece. Embora haja bem mais personagens, os protagonistas são, de novo, um pai e um filho.

O protagonismo em Skyline é ocupado pela figura mais tradicional do par romântico. Neste filme, podemos ver o apocalipse enquanto ocorre, na figura de uma invasão extraterrestre que caça humanos para usar seus cérebros para se reproduzir (meu resumo aí envolve um grau de suposição). À parte o péssimo roteiro e as horrendas atuações, o filme poderia ganhar interesse por mostrar um mundo sem esperança: ao final, o cérebro do protagonista homem é arrancado, enquanto a mulher, grávida, é levada para alguma espécie de centro reprodutivo dentro da espaçonave alienígena. Os autores do filme jogam fora mesmo esse mínimo momento interessante, ao fazer com que o cérebro do protagonista “tome consciência” novamente, chegando a um misto de humano e alienígena (Avatar?), salvando sua namorada e (supomos) assegurando a esperança de resistência.

Com diversos graus de realização artística (e acho The walking dead, quadrinhos e TV, muito melhor que The road), temos a mesma mensagem ideológica: mesmo sob as piores condições, existe uma dignidade última, uma humanidade que acorda, algo que não pode ser tirado de cada indivíduo. Que essa mensagem é moral e politicamente conservadora não precisa ser enfatizado, mas me interessa a função que ela assume, e o porquê de seu caráter cultural hegemônico (há inúmeros outros exemplos além desses três).

Não tenho uma resposta, mas talvez a ideia subjacente seja a de normalizar os desastres (econômico, ecológico) que vivemos. Nos Estados Unidos, já se trabalha com uma noção de “desemprego estrutural”, que, embora cotidianamente denunciada por economistas como Paul Krugman, está em risco de se tornar hegemônica, impedindo a adoção de medidas efetivas de combate ao desemprego. Analogamente, já há defesas de que o aquecimento global não é tão ruim assim, que pode tornar grandes partes do globo mais habitáveis, etc.

Na verdade, a mensagem ideológica de fundo se expressa melhor no livro Snowcrash, de Neal Stephenson (traduzido para o português como Nevasca). Nele, num mundo já pós-apocalíptico, vemos um grupo de protagonistas impedir a disseminação do vírus de computador Snowcrash, que seria capaz de fazer a completa interface com os sistemas da mente humana, efetivamente controlando o “fundo último” de autodeterminação de cada um. O novo conhecimento da interface software-mente é então utilizado por uma das protagonistas para se tornar a “ultimate hacker”, maximizando o lucro individual sobre a situação coletiva. “Disaster capitalism”, como definiu Naomi Klein.

Reproduzo abaixo artigo meu publicado na página de opinião do jornal Zero Hora do dia 16, e que até agora estava disponível somente para assinantes:

Poetas na praça, por Pedro Mandagará*

Quando termina a Feira do Livro, dois poetas continuam habitando a Praça da Alfândega. No par de esculturas realizado por Xico Stockinger, Mario Quintana está sentado num dos bancos da praça, ouvindo Carlos Drummond de Andrade, que, de pé, lê um livro. Com ou sem Feira, o visitante pode posar para uma foto no local, junto a dois dos maiores poetas brasileiros do século 20.

Os dois poetas habitantes da praça devem ter se sentido envergonhados com o que aconteceu na última sexta-feira, dia 12, durante a Feira do Livro. A poeta Telma Scherer realizava uma performance, de título “Não alimente o escritor”, quando foi detida por um grupo de policiais militares. A detenção foi registrada em vídeo, disponível no YouTube sob o sugestivo título de “Retrato da cultura na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre”. No momento em que o vídeo começa, um grupo presta apoio à poeta, tentando impedir sua retirada. Um homem que faz parte do grupo é chamado a “acompanhar” um dos policiais; quando ele diz que tem os seus direitos, o policial responde: “Tu tem o direito de me obedecer também”.

Como estou longe de Porto Alegre, posso reconstruir o que aconteceu antes e depois da parte filmada apenas com base em relatos contraditórios que aparecem online. Telma teria sido presa por perturbar a ordem na Feira e atrapalhar os compradores e feirantes, que teriam reclamado. A poeta também relata em seu blog que, após ser detida, teriam lhe dito que deveria realizar exames médicos, que nunca aconteceram.

Sua prisão desperta muitos questionamentos. São realmente necessários tantos policiais para prender uma poeta? A maior parte deles não poderia estar atuando na coação a ameaças maiores à ordem pública?

Além disso, que conceito de ordem pública está sendo aplicado aqui? Em que sentido uma manifestação literária perturba a ordem de um evento literário? A não ser que se pense que a literatura só pode se manifestar nas páginas de um livro – preferencialmente sendo vendido ou comprado. Teríamos então um conceito muito pobre de literatura.

A organização da Feira do Livro nega ter participado na repressão à performance de Telma – mas a Feira não é só a organização, e também se constitui de feirantes e público. Que alguma dessas pessoas tenha chamado a polícia por uma performance literária mostra o quão próximo estamos desse conceito pobre e estático de literatura.

Uma literatura na qual o bom poeta é o poeta de bronze ou papel: estátua ou letra morta.

*DOUTORANDO EM LETRAS NA PUCRS E PESQUISADOR VISITANTE NA UNIVERSIDADE DE STANFORD