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Tag Archives: zumbis

Esta semana fui a uma apresentação de um paper aqui em Stanford que comparava um poema de Paul Celan com The road, de Cormac McCarthy. Evidentemente eu não tenho competência para falar de Celan, sabendo tão pouco alemão. Lembrando do livro de McCarthy, comecei a pensar na coincidência de cenários pós-apocalípticos no cinema, literatura e cultura atuais. Dois exemplos recentes me vieram de imediato. O primeiro, a série The walking dead da AMC e seu estrondoso sucesso de público, muito acima do que seria esperado pelo público modesto (mas fiel) da série original em quadrinhos. O segundo é o terrível filme Skyline, que assisti no último fim de semana em Los Angeles (em minha defesa, eu queria conhecer o Chinese Theater por dentro e esse filme era o que estava passando).

The road se passa num futuro de desastre ecológico, supostamente ocorrido após um evento que lembra, pelas poucas referências, o de uma explosão nuclear. Nesse ambiente, nada está vivo: não há plantas, animais ou peixes. Um pai e seu filho, protagonistas do romance, sobrevivem a partir dos restos da civilização que acabou, procurando comida enlatada em casas abandonadas, e seguindo uma interminável estrada.

The walking dead tem um tom semelhante. No seu futuro, o mundo foi tomado por zumbis e os poucos sobreviventes procuram sobreviver dos restos do que havia antes, ou estabelecendo comunidades temporárias (na versão em quadrinhos chega a ser reinventada a agricultura numa delas). A morte do planeta não é tão completa como no romance de McCarthy: embora os zumbis comam tanto humanos como animais, diminuindo consideravelmente a população de ambos, as plantas ainda sobrevivem, e o problema da poluição não aparece. Embora haja bem mais personagens, os protagonistas são, de novo, um pai e um filho.

O protagonismo em Skyline é ocupado pela figura mais tradicional do par romântico. Neste filme, podemos ver o apocalipse enquanto ocorre, na figura de uma invasão extraterrestre que caça humanos para usar seus cérebros para se reproduzir (meu resumo aí envolve um grau de suposição). À parte o péssimo roteiro e as horrendas atuações, o filme poderia ganhar interesse por mostrar um mundo sem esperança: ao final, o cérebro do protagonista homem é arrancado, enquanto a mulher, grávida, é levada para alguma espécie de centro reprodutivo dentro da espaçonave alienígena. Os autores do filme jogam fora mesmo esse mínimo momento interessante, ao fazer com que o cérebro do protagonista “tome consciência” novamente, chegando a um misto de humano e alienígena (Avatar?), salvando sua namorada e (supomos) assegurando a esperança de resistência.

Com diversos graus de realização artística (e acho The walking dead, quadrinhos e TV, muito melhor que The road), temos a mesma mensagem ideológica: mesmo sob as piores condições, existe uma dignidade última, uma humanidade que acorda, algo que não pode ser tirado de cada indivíduo. Que essa mensagem é moral e politicamente conservadora não precisa ser enfatizado, mas me interessa a função que ela assume, e o porquê de seu caráter cultural hegemônico (há inúmeros outros exemplos além desses três).

Não tenho uma resposta, mas talvez a ideia subjacente seja a de normalizar os desastres (econômico, ecológico) que vivemos. Nos Estados Unidos, já se trabalha com uma noção de “desemprego estrutural”, que, embora cotidianamente denunciada por economistas como Paul Krugman, está em risco de se tornar hegemônica, impedindo a adoção de medidas efetivas de combate ao desemprego. Analogamente, já há defesas de que o aquecimento global não é tão ruim assim, que pode tornar grandes partes do globo mais habitáveis, etc.

Na verdade, a mensagem ideológica de fundo se expressa melhor no livro Snowcrash, de Neal Stephenson (traduzido para o português como Nevasca). Nele, num mundo já pós-apocalíptico, vemos um grupo de protagonistas impedir a disseminação do vírus de computador Snowcrash, que seria capaz de fazer a completa interface com os sistemas da mente humana, efetivamente controlando o “fundo último” de autodeterminação de cada um. O novo conhecimento da interface software-mente é então utilizado por uma das protagonistas para se tornar a “ultimate hacker”, maximizando o lucro individual sobre a situação coletiva. “Disaster capitalism”, como definiu Naomi Klein.