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Prezados,

convido aos interessados a participar no Grupo de Leitura de Literatura e Filosofia, que a professora Marta Ramos Oliveira e eu, Pedro Mandagará, iremos realizar a partir da próxima segunda-feira, 29 de abril. O grupo funcionará sempre às segundas, às 14 horas, na salan 202 do prédio 43324 do Campus do Vale da UFRGS (Porto Alegre), com encontros de uma hora e meia. Ao final dos dez encontros do semestre, os participantes que tiverem 75% de frequência podem solicitar um certificado de 15 horas, emitido pela PROEX (taxa de 4 reais).

Neste semestre, o grupo de leituras discutirá alguns autores ligados ao conceito de Estado de Natureza. O texto inicial será o ensaio “Dos canibais”, de Michel de Montaigne. A seguir partiremos para textos de Thomas Hobbes (partes de “Do cidadão”) e Jean-Jacques Rousseau (“Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre os homens”), com um excurso por “A tempestade”, de William Shakespeare.

Inscrições podem ser feitas gratuitamente no local ou pelo email grupodeliteraturaefilosofiaufr@gmail.com

Esperamos todos lá!

Michael Korfmann, Christoph Schamm e Vivian Nickel,
participação via skype do Prof. Hans Ulrich Gumbrecht, da Stanford University, e de Pedro Mandagará (Doutorando PUCRS, em bolsa-sanduíche da CAPES em Stanford):

Dia 25 de novembro, quinta feira, a partir das 14h.
Local: UFRGS – ILEA – Sala 111 (Sala do Pesquisador); entrada franca.

Outras informações:

http://www.ufrgs.br/ppgletras/

http://www.ufrgs.br/ppgletras/convitegumbrecht.pdf

Esta semana fui a uma apresentação de um paper aqui em Stanford que comparava um poema de Paul Celan com The road, de Cormac McCarthy. Evidentemente eu não tenho competência para falar de Celan, sabendo tão pouco alemão. Lembrando do livro de McCarthy, comecei a pensar na coincidência de cenários pós-apocalípticos no cinema, literatura e cultura atuais. Dois exemplos recentes me vieram de imediato. O primeiro, a série The walking dead da AMC e seu estrondoso sucesso de público, muito acima do que seria esperado pelo público modesto (mas fiel) da série original em quadrinhos. O segundo é o terrível filme Skyline, que assisti no último fim de semana em Los Angeles (em minha defesa, eu queria conhecer o Chinese Theater por dentro e esse filme era o que estava passando).

The road se passa num futuro de desastre ecológico, supostamente ocorrido após um evento que lembra, pelas poucas referências, o de uma explosão nuclear. Nesse ambiente, nada está vivo: não há plantas, animais ou peixes. Um pai e seu filho, protagonistas do romance, sobrevivem a partir dos restos da civilização que acabou, procurando comida enlatada em casas abandonadas, e seguindo uma interminável estrada.

The walking dead tem um tom semelhante. No seu futuro, o mundo foi tomado por zumbis e os poucos sobreviventes procuram sobreviver dos restos do que havia antes, ou estabelecendo comunidades temporárias (na versão em quadrinhos chega a ser reinventada a agricultura numa delas). A morte do planeta não é tão completa como no romance de McCarthy: embora os zumbis comam tanto humanos como animais, diminuindo consideravelmente a população de ambos, as plantas ainda sobrevivem, e o problema da poluição não aparece. Embora haja bem mais personagens, os protagonistas são, de novo, um pai e um filho.

O protagonismo em Skyline é ocupado pela figura mais tradicional do par romântico. Neste filme, podemos ver o apocalipse enquanto ocorre, na figura de uma invasão extraterrestre que caça humanos para usar seus cérebros para se reproduzir (meu resumo aí envolve um grau de suposição). À parte o péssimo roteiro e as horrendas atuações, o filme poderia ganhar interesse por mostrar um mundo sem esperança: ao final, o cérebro do protagonista homem é arrancado, enquanto a mulher, grávida, é levada para alguma espécie de centro reprodutivo dentro da espaçonave alienígena. Os autores do filme jogam fora mesmo esse mínimo momento interessante, ao fazer com que o cérebro do protagonista “tome consciência” novamente, chegando a um misto de humano e alienígena (Avatar?), salvando sua namorada e (supomos) assegurando a esperança de resistência.

Com diversos graus de realização artística (e acho The walking dead, quadrinhos e TV, muito melhor que The road), temos a mesma mensagem ideológica: mesmo sob as piores condições, existe uma dignidade última, uma humanidade que acorda, algo que não pode ser tirado de cada indivíduo. Que essa mensagem é moral e politicamente conservadora não precisa ser enfatizado, mas me interessa a função que ela assume, e o porquê de seu caráter cultural hegemônico (há inúmeros outros exemplos além desses três).

Não tenho uma resposta, mas talvez a ideia subjacente seja a de normalizar os desastres (econômico, ecológico) que vivemos. Nos Estados Unidos, já se trabalha com uma noção de “desemprego estrutural”, que, embora cotidianamente denunciada por economistas como Paul Krugman, está em risco de se tornar hegemônica, impedindo a adoção de medidas efetivas de combate ao desemprego. Analogamente, já há defesas de que o aquecimento global não é tão ruim assim, que pode tornar grandes partes do globo mais habitáveis, etc.

Na verdade, a mensagem ideológica de fundo se expressa melhor no livro Snowcrash, de Neal Stephenson (traduzido para o português como Nevasca). Nele, num mundo já pós-apocalíptico, vemos um grupo de protagonistas impedir a disseminação do vírus de computador Snowcrash, que seria capaz de fazer a completa interface com os sistemas da mente humana, efetivamente controlando o “fundo último” de autodeterminação de cada um. O novo conhecimento da interface software-mente é então utilizado por uma das protagonistas para se tornar a “ultimate hacker”, maximizando o lucro individual sobre a situação coletiva. “Disaster capitalism”, como definiu Naomi Klein.

Reproduzo abaixo artigo meu publicado na página de opinião do jornal Zero Hora do dia 16, e que até agora estava disponível somente para assinantes:

Poetas na praça, por Pedro Mandagará*

Quando termina a Feira do Livro, dois poetas continuam habitando a Praça da Alfândega. No par de esculturas realizado por Xico Stockinger, Mario Quintana está sentado num dos bancos da praça, ouvindo Carlos Drummond de Andrade, que, de pé, lê um livro. Com ou sem Feira, o visitante pode posar para uma foto no local, junto a dois dos maiores poetas brasileiros do século 20.

Os dois poetas habitantes da praça devem ter se sentido envergonhados com o que aconteceu na última sexta-feira, dia 12, durante a Feira do Livro. A poeta Telma Scherer realizava uma performance, de título “Não alimente o escritor”, quando foi detida por um grupo de policiais militares. A detenção foi registrada em vídeo, disponível no YouTube sob o sugestivo título de “Retrato da cultura na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre”. No momento em que o vídeo começa, um grupo presta apoio à poeta, tentando impedir sua retirada. Um homem que faz parte do grupo é chamado a “acompanhar” um dos policiais; quando ele diz que tem os seus direitos, o policial responde: “Tu tem o direito de me obedecer também”.

Como estou longe de Porto Alegre, posso reconstruir o que aconteceu antes e depois da parte filmada apenas com base em relatos contraditórios que aparecem online. Telma teria sido presa por perturbar a ordem na Feira e atrapalhar os compradores e feirantes, que teriam reclamado. A poeta também relata em seu blog que, após ser detida, teriam lhe dito que deveria realizar exames médicos, que nunca aconteceram.

Sua prisão desperta muitos questionamentos. São realmente necessários tantos policiais para prender uma poeta? A maior parte deles não poderia estar atuando na coação a ameaças maiores à ordem pública?

Além disso, que conceito de ordem pública está sendo aplicado aqui? Em que sentido uma manifestação literária perturba a ordem de um evento literário? A não ser que se pense que a literatura só pode se manifestar nas páginas de um livro – preferencialmente sendo vendido ou comprado. Teríamos então um conceito muito pobre de literatura.

A organização da Feira do Livro nega ter participado na repressão à performance de Telma – mas a Feira não é só a organização, e também se constitui de feirantes e público. Que alguma dessas pessoas tenha chamado a polícia por uma performance literária mostra o quão próximo estamos desse conceito pobre e estático de literatura.

Uma literatura na qual o bom poeta é o poeta de bronze ou papel: estátua ou letra morta.

*DOUTORANDO EM LETRAS NA PUCRS E PESQUISADOR VISITANTE NA UNIVERSIDADE DE STANFORD

A word first about a tricky concept that you need to be able to understand if you are to accompany me through what follows without flagging, and without getting lost. Woe betide you if you do, because where we are about to go is virgin territory. It’s a wild primeval place, a realm of the id, where the very manifold of your identity can easily be gashed open, sundered, so that all the little reflex actions that you call your ‘self’ will spill out, just so many polystyrene personality pellets, tumbling from a slashed sag-bag. I will not be able to help you in this place and nor, may I say, do I wish to.

This concept is eidetic memory and I am an eidetiker. Perhaps I was always meant to be one – whatever that means – or maybe it was part of the set-up, something to do with the way my destiny has been queered by you-know-who. But no matter, that is not the issue here. (p. 15)

My Idea of Fun, publicado em 1993, foi o primeiro romance de Will Self. O protagonista do livro é Ian Wharton, que trabalha com marketing. Ian é o ‘eidético’ do trecho supracitado, capaz de relembrar qualquer imagem no seu campo de visão e manipulá-la mentalmente (capaz de, por exemplo, ‘ler’ uma folha inteira de jornal tendo-a visto apenas de relance). Além disso, Ian se acredita capaz de manipular suas lembranças visuais a ponto de saber coisas que ele sequer viu (como o outro lado da folha de jornal, ou o que alguma pessoa tem dentro do bolso).

Ian tem como tutor Mr. Broadhurst, depois chamado Samuel Northcliff e The Fat Controller, com artigo maiúsculo. Broadhusrt/Northcliff é a tentativa de Will Self de fazer uma personagem completamente amoral, à maneira dos quatro libertinos de Sade nos 120 dias de Sodoma. Diferente de Sade, porém, a amoralidade do Fat Controller é assexuada: o tutor impede que Ian faça sexo, sob a alegação de que seu pênis seria arrancado. Seu tutorado funciona como uma espécie de aprendizado mágico, no qual Ian aprenderia novos poderes relativos à sua capacidade eidética. Esse aprendizado envolve a codificação de uma espécie de ‘mágica cotidiana’, que regula todos os aspectos da vida de Ian por meio de diferentes rotinas, como lavar as mãos determinado número de vezes por dia, nunca pisar nas divisões do calçamento, etc.

Northcliff, no entanto, pode ou não existir: num capítulo chamado ‘Rehabilitation’, Ian se trata com o Dr. Gyggle, psiquiatra ligado à universidade na qual estuda marketing, e se cura de boa parte de suas manias. O leitor fica, então, convencido de que Broadhurst era um tutor imaginário. Este capítulo termina a primeira parte, intitulada ‘The first person’. Na segunda parte, ‘The third person’, o jogo metalingüístico continua e a narração passa a ser na terceira pessoa. Aí a confusão se instaura, pois Northcliff/Broadhurst continua aparecendo na história, inclusive em cenas que não têm a participação de Ian. Efetivamente se instaura a realidade textual da personagem, com as mesmas características que tinha enquanto tutor na primeira parte (muito gordo, fuma charuto, mata por qualquer coisa).

Nesta segunda parte, Ian continua o tratamento com o Dr. Gyggle, através de uma série de sessões de sono induzido e longo (mais de 24 horas), com o objetivo de, através dos sonhos, enfrentar imageticamente o tutor e superar essa fase. Nos sonhos Ian vai para a ‘Land of children jokes’, um meio-termo entre Alice no país das maravilhas e Naked lunch. Lá, quando consegue finalmente confrontar The Fat Controller, acaba relembrando pedaços de sua vida que estavam completamente apagados da memória, nos quais, em contraponto violento com seu comportamento usual, ele age como se estivesse no realm of the id já citado.

A indefinição do caráter real ou imaginário de vários elementos do texto torna o projeto de Will Self interessante. Seu grande problema é a fraqueza de certas caracterizações. Broadhurst, por exemplo, que tenta ser uma paródia de certos vilões de Dickens, acaba mais parecido com o Rei do Crime das revistas do Homem-Aranha e do Demolidor. Sua ‘Land of children jokes’ não chega nem perto da força (que é uma força de linguagem) dos pesadelos de William Burroughs.

Além das comparações valorativas, o grande problema de Will Self (neste livro, o único que li) é o seu momento histórico – o que também é seu grande valor, o valor de um sintoma. A própria fraqueza das paródias reforça seu caráter de simulacro, de um momento onde o que se vê da realidade é um reflexo embaçado, que pode ou não ser o que acontece mesmo. Já em 1993, com a Internet ainda engatinhando (e provavelmente escrevendo num 286), e sem tematizar explicitamente a tecnologia (como faz William Gibson, p. ex.), Self consegue representar, na forma, alguns problemas do mundo e da literatura de hoje.

Voltando aos pontos negativos, outro grande problema do livro de Self é o que, para nós – brasileiros, latino-americanos, todo mundo que está fora do eixo Estados Unidos/Europa – só pode ser visto como uma enorme alienação. O problema não é único de Self, e também se encontra em grande parte da produção literária brasileira (e gaúcha). É um voltar as costas à realidade, característico da nova posição do que antes se chamaria de classe média.

Todos saben que maté a María Iribarne Hunter. Pero nadie sabe cómo la conocí, qué relaciones hubo exactamente entre nosotros y cómo fui haciéndome a la idea de matarla. Trataré de relatar todo imparcialmente, porque, aunque sufrí mucho por su culpa, no tengo la necia pretensión de ser perfecto. (p. 15)

O livro de Sábato, narrado e protagonizado pelo pintor Juan Pablo Castel, mostra como esse assassinato de María Iribarne veio a ser. Determinada leitura pode pensar no romance como uma história do ciúme incontrolável de Juan Pablo – ela é casada e os dois têm um romance. Outra leitura, apegada à metáfora do túnel, pode mostrar toda a experiência do pintor, inclusive a própria personagem María, como uma série de construções fantasmáticas, como o protagonista vendo fragmentos do mundo através das janelas do seu túnel/nas paredes de sua caverna. Por exemplo, num dos primeiros encontros entre os dois, Juan Pablo pensa ter visto, através da semi-obscuridade da noite na Recoleta, um sorriso de María, que teria acontecido um décimo de segundo antes – como a sensação de que se é observado.

Minha leitura não foi simplesmente a de uma história de ciúme, nem se aproxima tanto do solipsismo quanto a segunda. Embora Juan Pablo não narre ‘todo imparcialmente’, a partir do texto se pode perceber uma construção subjacente da personagem María, distante e mesmo contrária às intenções/interpretações do narrador. A narração ela mesma mostra um processo interpretativo. Juan Pablo examina as possibilidades envolvidas em cada ato de María – as possíveis motivações para sua primeira carta, por exemplo – e as elimina, após uma análise que chama de ‘lógica’. O emprego dessas racionalizações, junto a uma lógica experimental, que tenta, ativamente e a cada momento, enredar María em alguma contradição ou na admissão de alguma traição ou engano, acaba fazendo Juan Pablo concluir pelo caráter essencialmente enganador de María, e leva ao assassinato. No entanto, o romance mesmo solapa essas conclusões, mostrando, além das premissas frágeis do que Juan Pablo conclui, o quanto o processo ‘lógico’ é um recalque (confusões mentais, bebida, amnésias).

O romance em si é mais rico que qualquer uma das leituras, oscilando entre a representação de experiências fugazes e dos extensos processos mentais que lhes seguem (extensos e contraditórios, misturando ‘lógica’ e culpa). Na edição que li, o livro tem 150 páginas, bem pequenas porque é uma edição de bolso. Li de uma vez só: foi impossível não continuar até o fim. Sei que existe tradução para o português, mas recomendo ler no original, já que o espanhol de Sábato (neste livro) é bastante simples e envolvente (em especial os diálogos). El túnel foi publicado pela primeira vez na revista El Sur, em 1948 (seis anos depois de O estrangeiro). O autor, então com 37 anos, está vivo ainda.